Jogos Boole perdem seu idealizador
Procópio Mendonça Mello, professor de matemática durante 25 anos em Porto Alegre, idealizador dos Jogos Boole, morreu nesta quarta-feira, dia 18/03. Deixa um trabalho inédito desenvolvido a partir dos seus estudos da lógica e que obteve reconhecimento internacional.
Em suas experiências em sala de aula no Instituto Educacional João XXIII constatou que o problema de seus alunos não era o conteúdo a ser apreendido, mas, o raciocínio lógico. O professor não conseguia aceitar que as crianças pudessem rejeitar a matemática e acreditava que seria possível apresentá-la de uma forma que despertasse o interesse. Buscando sempre uma forma lúdica de trabalhar os seus conceitos, acabou sendo apelidado de “professor pardal”, na escola. Através de enigmas, desafios e atividades práticas, o professor foi desenvolvendo vários projetos até produzir os Jogos Boole com os quais as crianças brincam e aprendem simultaneamente.
Em 1988, a associação desta idéia com a língua francesa criou oportunidade de apresentar o projeto no Congresso Mundial de Professores de Francês, na Grécia, quando professores de diversas partes do mundo ficaram impressionados com as possibilidades de relacionar à lógica com outras linguagens. Desde então, os Jogos Boole têm recebido a aprovação de diversos educadores. O resultado da aplicação do Boole já foi constatado por profissionais da área de psicologia que trabalham com crianças portadoras de síndrome de down, a exemplo da psicopedagoga Marilene Cardoso.
Inspirados no matemático George Boole, um dos criadores da matemática utilizada nos computadores de hoje, os jogos são compostos por livros, baralhos e jogos de computador ilustrados por um material rico em imagens, sons e palavras não somente em português, mas, em inglês, francês e espanhol.
A professora de matemática da FACOS Elena Chemale é uma das educadoras que acompanharam o desenvolvimento dos Jogos Boole desde o início:
“Trabalho com os Jogos Boole desde que foram criados. Divulgo entre professores e meus alunos graduandos de matemática, especialmente, porque eles tocam os alunos mais estranhos, considerados “problemas”. Tenho muitas experiências de crianças que parecem não ter condições de pensar e que se revelam no contato com esta lógica dos Jogos Boole”.
A crença de Procópio Mello de que este material poderia auxiliar a elaborar o pensamento serviu de motivação para que ele estivesse sempre criando novas histórias e pensando em uma forma de atingir um número cada vez maior de crianças. Foi incansável na tentativa de atingir este objetivo.
O trabalho de Procópio Mello não impressionou apenas pessoas ligadas à educação, mas, também a diversas outras áreas de atuação como afirma o publicitário Antônio Ferreira:
O que devemos pensar no momento são as coisas boas que ele construiu durante os momentos que tivemos a alegria e felicidade de compartilhar com ele. Lembrarei sempre dele com um baralho de carta nas mãos fazendo as brincadeiras (mágicas) envolvendo lógica e matemática. Pois, o Procópio na realidade era um mágico disfarçado de professor, e esta mágica estará presente na vida de todos que ele tocou, sejam os alunos que ele ensinou ou os que tiveram e continuarão tendo acesso ao seu legado (jogos Boole) ou aos que tiveram o prazer de conviver com ele.
Mantendo seu caráter investigativo, Procópio, há mais de 20 anos já havia deixado um documento registrado em cartório sobre o seu desejo de doar seu corpo para a Fundação de Ciências Médicas, o que foi respeitado pela sua família. O professor tinha o sonho de ver os joguinhos nas prateleiras de lojas e supermercados, o que ainda não se realizou, mas, os jogos já foram adquiridos por pessoas em todo o país e há dois anos recebeu a sua primeira encomenda de Portugal. São fatos como estes que incentivam a continuação deste trabalho pela sua equipe que pretende elaborar versões que explorem segmentos como a ecologia, em um projeto que já foi batizado de Eco-lógica e um projeto chamado Viajando pela mente, associando a lógica a informações turísticas.
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