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Como surgiu o livro?

Imprensa e a Reforma

Se o encontro de Erasmo com aquele fragmento de papel imprenso apontou para a associação entre a imprensa e os humanistas, foi preciso esperar a rebelião de Lutero, no início do século 16, para que o livro feito nas oficinas por mestre-impressores superasse o dos monges copistas.

A polêmica religiosa foi tão apaixonada que o latim, limitado às esferas sociais superiores, começou a ser abandonado. Para conquistar o povo para uma das causas, a dos protestantes ou a dos católicos, era preciso que se escrevesse na fala da gente comum: Lutero, apelando diretamente para o povo, traduziu a Bíblia para o alemão e mundo católico, por sua vez, encheu-se de "vulgatas" do Novo Testamento. Foi a Reforma e não o Renascimento quem disseminou o livro de Gutemberg, pois os teólogos e os doutrinadores religiosos tiveram que apelar diretamente para os povos daquela época para ganhar o apoio deles na grande Guerra Teológica que dividiu a Europa ao meio.

  

A literatura cientifica e sentimental

 

Daquela guerra teológica, que não demorou muito para tornar-se numa guerra de fato, foi um passo para chegar-se às publicações profanas.

 

Copérnico, percebendo as conseqüências que a descoberta do heliocentrismo provocaria (a Igreja defendia o geocentrismo de Ptolomeu), tardou o que pode para evitar imprimir De revolutionibus orbitae coelestium ("A Revolução das Órbitas Celestes", 1543), pois temia que "a água límpida da ciência virasse lama ao chegar ao conhecimento do povo".

 

O povo não transformou o conhecimento em lama, mas sim, por meio dos intelectuais seculares, num instrumento para sua emancipação das amarras feudais. Em todos os lugares onde o livro impresso difundiu-se foi acompanhado pelo desejo da liberdade de pensamento e de palavra. Desde então nunca mais foi admissível sustentar-se, com argumentos outros que não fossem os do interesse material, a servidão ou a escravidão. Por mais que as tiranias, os dogmatismos e as fanáticas ortodoxias têm-no perseguido, censurado, proibido ou incinerado, o livro mostrou-se capaz de sobreviver a tudo.

 

Não foi, todavia, só a ciência e a sabedoria dos teólogos e dos humanistas que o livro impresso difundiu. Ele abriu-se também aos sentimentos. Com a descoberta do continente do romance, a partir do século 16, homens e mulheres de todas as idades passaram a ver nele, no livro, o mais extraordinário objeto para expor, a si e aos outros, as suas venturas e desventuras, seus amores e paixões, fazendo com que a literatura deixasse de ser uma arte aristocrática e cortesã para democratizar-se e popularizar-se.

 

A Revolução do Livro Impresso já completou mais de cinco séculos e graças a ela a humanidade deu seu maior salto de qualidade em todos os tempos, proporcionando a que milhões de indivíduos de todas as partes da terra passassem a ter ao seu alcance noções as mais diversas do conhecimento.
Voltaire Schilling - Terra educação

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